A escassez global de enxofre já provoca impactos na indústria de fertilizantes e chegou diretamente a Goiás. Em Catalão, no sudeste do estado, a Mosaic, uma das principais empresas do setor, interrompeu temporariamente parte das atividades devido às dificuldades para obter a matéria-prima utilizada na fabricação de fertilizantes fosfatados.
A situação preocupa trabalhadores, sindicatos e o setor produtivo, principalmente pelo risco de novas demissões. Segundo informações divulgadas sobre o caso, mais de 600 empregos estão ameaçados na unidade de Catalão, em meio às medidas adotadas pela empresa para enfrentar a redução da oferta mundial e a forte elevação dos custos do enxofre.
O problema tem origem em um cenário internacional de instabilidade. As restrições nas rotas marítimas provocadas pelo conflito no Oriente Médio dificultaram o transporte de enxofre, um insumo fundamental para a cadeia de produção dos fertilizantes fosfatados. Com menos produto disponível no mercado e custos de transporte mais elevados, as empresas passaram a enfrentar dificuldades para manter o ritmo normal de produção.
A Mosaic informou que começou a implementar medidas de redução da produção em 8 de julho e revisou seu planejamento operacional para o segundo semestre de 2026. A companhia afirmou que a decisão é temporária e está relacionada à combinação de instabilidade geopolítica, restrições logísticas, aumento da demanda mundial e pressão sobre os preços do enxofre.
O enxofre ocupa uma posição importante na produção de fertilizantes fosfatados. Produtos como MAP e DAP, utilizados na agricultura para fornecer nutrientes fundamentais às plantações, dependem desse insumo em sua cadeia de fabricação.
Segundo a Mosaic, são necessárias aproximadamente quatro toneladas de enxofre para a produção de dez toneladas de fertilizantes fosfatados, o que ajuda a dimensionar o impacto que uma interrupção no fornecimento pode provocar em toda a cadeia.
Dessa forma, a dificuldade de acesso à matéria-prima não afeta somente as indústrias. O problema pode chegar aos produtores rurais por meio da disponibilidade e do preço dos fertilizantes, aumentando a pressão sobre os custos de produção das lavouras.
Goiás é um dos estados brasileiros com forte participação do agronegócio e possui grande demanda por fertilizantes. A dependência brasileira do mercado internacional torna o setor especialmente sensível às mudanças nos preços e às interrupções nas cadeias globais de fornecimento.
Dados da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Goiás destacam que o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza, o que aumenta a exposição do setor aos acontecimentos externos.
Em Catalão, os reflexos da crise já chegaram ao mercado de trabalho. A interrupção das atividades resultou em demissões na unidade de mistura e colocou em alerta os trabalhadores que permanecem empregados.
Informações divulgadas sobre as negociações indicam que 22 trabalhadores já haviam sido demitidos na unidade de mistura de Catalão. Paralelamente, o Sindicato Metabase passou a negociar com a empresa alternativas para tentar preservar aproximadamente 650 postos de trabalho relacionados à unidade Chapadão.
A preocupação do sindicato é evitar que a paralisação temporária provoque uma onda maior de desligamentos. Para os trabalhadores, a incerteza aumenta diante da falta de uma previsão definitiva para a normalização da produção.
A empresa, por sua vez, afirma que está mantendo diálogo com representantes dos trabalhadores e buscando alternativas para garantir o abastecimento de matéria-prima.
O impacto econômico de uma eventual redução prolongada das atividades pode ultrapassar os limites da fábrica. Empregos industriais movimentam uma cadeia formada por fornecedores, prestadores de serviços, comércio e outros setores da economia local.
Por isso, uma crise que começa com a falta de uma matéria-prima no mercado internacional pode acabar atingindo diretamente a economia de uma cidade.
A dificuldade enfrentada pela indústria em Goiás não é um problema isolado. A escassez de enxofre vem afetando diferentes mercados e está relacionada principalmente às mudanças provocadas pelos conflitos e pelas restrições logísticas internacionais.
O Oriente Médio possui papel relevante no fornecimento mundial do insumo. Com as tensões na região e as dificuldades nas rotas marítimas, o transporte internacional ficou mais complexo e caro.
Ao mesmo tempo, a demanda mundial por fertilizantes continua pressionando a cadeia de produção. O resultado é uma combinação de menor oferta, dificuldades logísticas e preços mais elevados, cenário que dificulta o planejamento das empresas.
A Mosaic já havia apontado que o preço do enxofre estava entre os principais fatores de pressão sobre a produção. Segundo dados divulgados pela CNN Brasil em junho, o preço do insumo havia passado de aproximadamente US$ 500 por tonelada antes do conflito no Oriente Médio para cerca de US$ 1.250 por tonelada naquele momento.
Essa valorização altera significativamente os custos industriais. Quando a matéria-prima representa uma parte importante do processo produtivo, o aumento de preço pode tornar economicamente inviável manter determinadas unidades funcionando em plena capacidade.
A situação não está restrita a Catalão. A Mosaic adotou medidas de redução ou paralisação temporária em outras unidades brasileiras.
Segundo informações divulgadas pela empresa, as unidades de mistura de Candeias, na Bahia, e Catalão, em Goiás, tiveram as atividades temporariamente paralisadas. Já as unidades de Palmeirante, no Tocantins, e Sorriso, em Mato Grosso, passaram a operar com produção reduzida.
Também foram estendidas paralisações temporárias nas unidades de produção de Tapira, em Minas Gerais, e Catalão. A companhia ainda informou que estava prevista a hibernação gradual do complexo industrial de Uberaba, também em Minas Gerais.
Apesar das medidas, a empresa reforçou que o objetivo é enfrentar uma situação considerada excepcional e que os ajustes não representam uma mudança em sua estratégia de longo prazo.
A retomada da produção dependerá de fatores que estão fora do controle direto da companhia, principalmente da regularização do fornecimento internacional de enxofre, da estabilização dos preços e da normalização das rotas marítimas.
A crise preocupa não apenas os trabalhadores da indústria, mas também agricultores que dependem de fertilizantes para manter a produtividade das lavouras.
O Brasil possui uma forte dependência de importações de fertilizantes e, por isso, problemas internacionais de oferta podem provocar aumento dos custos para os produtores. Em Goiás, onde o agronegócio tem grande importância econômica, uma elevação nos preços dos insumos pode afetar diretamente a rentabilidade das propriedades rurais.
A Secretaria de Agricultura de Goiás destaca que os fertilizantes são fundamentais para culturas como o milho e que as oscilações do mercado internacional podem influenciar os custos de produção.
A preocupação aumenta porque o fertilizante é um dos componentes essenciais para garantir produtividade no campo. Caso os preços permaneçam elevados por um período prolongado, produtores podem precisar rever estratégias de compra, reduzir estoques ou buscar alternativas para diminuir os custos.
Isso cria um efeito em cadeia: a indústria enfrenta dificuldades para obter enxofre, reduz a produção de fertilizantes, o mercado pode sofrer com menor oferta e os agricultores ficam sujeitos a preços maiores.
Diante desse cenário, a atuação do sindicato ganhou importância. A entidade que representa os trabalhadores de Catalão passou a negociar com a empresa para tentar impedir que a paralisação resulte em novas demissões.
A intenção é encontrar alternativas capazes de preservar os empregos enquanto o mercado internacional não volta à normalidade.
Além das negociações trabalhistas, a situação também é acompanhada por autoridades e representantes do setor produtivo, já que a unidade possui importância para a economia local.
A Mosaic afirma que está buscando alternativas para garantir o abastecimento de matéria-prima e reduzir os impactos da crise sobre funcionários, fornecedores, clientes, agricultores e comunidades.
Para os trabalhadores, entretanto, a principal preocupação é quanto tempo a paralisação poderá durar e quando a produção poderá ser retomada em níveis normais.
A empresa considera a paralisação temporária e condiciona a retomada plena a uma melhora no cenário externo. Entre os fatores necessários estão a recuperação do fornecimento mundial de enxofre, a estabilização dos preços, a regularização das cadeias de abastecimento e a reabertura das rotas marítimas afetadas pelos conflitos.
Enquanto essas condições não forem restabelecidas, a indústria de fertilizantes continuará enfrentando dificuldades para planejar sua produção.
O caso de Catalão demonstra como acontecimentos internacionais podem produzir efeitos concretos em cidades do interior de Goiás. Uma crise envolvendo transporte marítimo, conflitos geopolíticos e oferta de uma matéria-prima acaba refletida na indústria, no mercado de trabalho e, potencialmente, nos custos do agronegócio.
A situação ainda pode evoluir nas próximas semanas. Se o fornecimento de enxofre for normalizado e os preços recuarem, a expectativa da empresa é recuperar gradualmente as atividades. Caso contrário, o setor poderá continuar enfrentando restrições, com novos impactos sobre trabalhadores e produtores.
Por enquanto, a prioridade em Catalão é tentar preservar os postos de trabalho e atravessar o período de instabilidade até que as condições do mercado internacional permitam a retomada das operações.
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